Monges-Celebridades!
BE MongesLaTrappe

As cervejas trapistas estão entre as melhores do mundo em quase todas as avaliações existentes.
O número de pessoas capazes de escrever e armazenar conhecimento na antiguidade era muito pequeno, concentrando estas tarefas nos mosteiros – comunidades criadas com o foco no mundo espiritual. 
Os  monges sempre tiveram o costume de tomar cervejas em suas refeições. 
Adicione a este contexto o fato que os monges buscavam a sua autossuficiência produzindo o maior número de produtos dentro das abadias, inclusive cerveja, e você entenderá de onde vem a tradição e a curiosidade natural por esta cerveja.
Apesar de todo o sucesso, ironicamente estas cervejas nunca buscaram a fama, nunca tiveram o foco de agradar um consumidor ou atender uma demanda local. 
O objetivo foi sempre produzir buscando a autossuficiência e ter uma fonte de renda para realizar o trabalho principal dos mosteiros:  ajudar o próximo.
Os monges nunca criaram campanhas mercadológicas para os seus produtos.  A exclusividade, a dificuldade, muitas vezes encontrada na compra, o misticismo e a tradição das Abadias criaram, sem querer, uma marca muito forte e querida no mercado cervejeiro.
A demanda por esta cerveja segue crescendo ao redor do mundo, seja pelo boom de cervejas Premium nas Américas ou pelo crescimento geral do mercado cervejeiro na Ásia.
A produção mundial das 11 abadias aprovadas pelas Associação Trapista Internacional (ITA) gira em torno de 500.000 hectolitros/ano. 
A Abadia Saint-Rémy, dona da Rochefort, tem aproximadamente 9% do mercado, fatura EUR 9 milhões e lucra perto de EUR 1 milhão para manter vivos os seus projetos sociais.
Mas as comunidades dos monges estão em declínio na Europa. 
A Abadia Notre Dame d’Orval chegou a contar com 35 monges e hoje tem apenas uma dúzia. 
Os números em Saint-Rémy são muito similares, com um agravante:  não existe mais aspirantes. 
O monge mais novo no mosteiro já está chegando aos seus 50 anos e alguns já passaram de 80. Nenhum dos mosteiros tradicionais consegue atender a demanda retraída que existe no mundo atualmente. 
A Orval já decidiu que não vai entrar em nenhum novo mercado. 
A Rochefort só consegue atender um cliente na Ásia, apesar de pedidos frequentes vindos da região.  
A mais radical de todas estas cervejarias é a Westvleteren, situada dentro da Abadia de Saint Sixus e dona de algumas das cervejas mais cobiçadas do mundo. 
Em 1945, Abade Gerardus decidiu diminuir a produção na abadia por acreditar que a cervejaria estava tomando tempo demais dos monges e interferindo com o trabalho espiritual. 
Desde então a cervejaria produz somente 5.000 hectolitros por ano. 
A abadia realiza vendas somente pelo telefone e possuem um alto controle para garantir que o produto não esteja sendo revendido e que o maior número de pessoas possa ter acesso a bebida. 
Só colocaram suas cervejas em supermercados uma vez em 2011 para obter fundos para uma reforma na abadia.
Para atender a demanda crescente, os mosteiros teriam que realizar investimentos enormes para expandir as áreas produtivas e, inevitavelmente, teriam que utilizar mão de obra externa (devido ao pequeno número de monges aptos a trabalhar nas cervejarias), perdendo parte do controle da produção, indo diretamente contra um dos principais pilares que caracterizam uma cerveja como trapista.
Será que esta expansão também não iria contra a própria filosofia dos monges? O verdadeiro cliente deveria ser Deus, certo?  
A cervejaria nunca deve ser o foco principal da abadia e sim um meio para ela arrecadar os fundos necessários para manter o imóvel e realizar os trabalhos sociais na comunidade local.
Esta expansão não levaria os monges para o caminho dos homens de negócio, os deixando sem tempo para serem realmente monges, ferindo mais um dos pilares que caracterizam a cerveja trapista?
Mas seria errado os monges buscarem uma renda maior para poder ajudar ainda mais as suas  comunidades?
Só o tempo vai dizer o quanto o capitalismo pode interferir nas crenças filosóficas dos monges.

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